quinta-feira, 25 de novembro de 2010



Fazendo uma analogia com uma citação de Bohm com Camões....
“o pensamento é um sistema que pertence à totalidade da cultura e da sociedade...”


“mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”


A questão dos pressupostos serem condicionados à época em que se vive é uma idéia antiga.
Nossos pressupostos afetam a essência da nossa observação, pois nossa visão é filtrada por eles. Os pressupostos do pensamento selecionam as informações e as organizam sob a forma de significados e imagens.

Nossos preconceitos influenciam nossas reações emocionais, já que o pensamento recebe as informações, que foram previamente filtradas por eles (os pressupostos). Somente depois dessa filtragem decidimos como reagir.
Bohm cita a questão do nacionalismo para exemplificar o paradoxo, partindo do axioma de que todos são contra matar crianças. No caso de uma nação em guerra, a premissa inicial passa para segundo plano, a ponto de se ser favorável ao bombardeamento do inimigo, mesmo que crianças sejam atingidas.


Muitas verdades...


Eduardo Gianetti, em seu livro "A ilusão da alma" pergunta e responde:


"É possível que Epíteto, o escravo e filósofo estóico do século I d.C., estivesse certo ao concluir que quem acusa os outros pelos seus próprios infortúnios revela uma total falta de educação; quem acusa a si mesmo mostra que a sua educação já começou; mas quem não acusa nem a si mesmo nem aos outros revela que a sua educação está completa ? Sim, é possível.


É possível que toda forma de feroz intransigência e todas as guerras ideológicas e todos os conflitos sangrentos por terras, minérios, primazias sejam fruto de um pavoroso mal-entendido da consciência humana sobre si mesma?(…) Sim, é possível"
Nós temos uma tendência a pressupor que estamos sempre certos. Isso acontece devido aos nossos paradoxos, que criam mecanismos que evitam o autoquestionamento, atribuindo os problemas a causas externas.
Nós somos levados a crer que o pensamento e o sentimento são coisas separadas. E eles são dominados por demandas contraditórias. Então, se não estivermos atentos para isso tenderemos a confundir problema e paradoxo, e assim ficaremos impossibilitados de reagir de forma adequada.

Problema x Paradoxo

David Bohm trata da questão problema x paradoxo afirmando que muitos de nossos problemas na verdade são paradoxos. Estes são tratados como tal, devido à falta de percepção interna que nos assola. Essa adversidade levou a sociedade a tentar controlar esses distúrbios da nossa natureza através da punição, sistemas morais e éticos e religião. Mas na realidade poderíamos alcançar melhores resultados mediante trabalhos voltados para dentro e orientados para fora .


Consciência participativa.

No diálogo, não buscamos o convencimento e a persuasão. A palavraconvencerquer dizerganhar’, e a expressãopersuadir’ é semelhante. Baseia-se na mesma raiz de ‘suave’ e ‘doce’. As pessoas algumas vezes tentam persuadir com palavras doces e convencer com termos fortes. Ambos chegam ao mesmo resultado, embora sem importância. Nãosentido em ser persuadido ou convencido; isso não é coerente ou racional. Se alguma coisa é correta, você não precisa se persuadido. Se alguém precisar persuadi-lo, é porque provavelmente há dúvidas a respeito do assunto.

Relações dialógicas.


(...) a educação constitui-se em um ato coletivo, solidário, uma troca de experiências em que cada envolvido discute ideias e concepções. A dialogicidade da relação entre educador e educando. O que importa é que professores e os alunos se assumam epistemologicamente curiosos.
(Paulo Freire, 1998, p.96)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Diálogos possíveis

Os queridos e saudosos Laurel & Hardy, conhecidos entre nós como O Gordo & O Magro, numa deliciosa remontagem ao som de Santana. O humor dialoga sempre a favor.  =)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O eu é feito de pedaços do outro


Tudo é do outro. Escutar é permitir a presença do outro. O aluno que eu escuto vem morar em mim. A presença do outro me completa.
Bartolomeu Campos de Queirós

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O constante diálogo.

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

Num diálogo todos vencem.

A palavra “discussão” tem a mesma raiz que “percussão” ou “concussão”. Realmente significa fracionar as coisas. Enfatiza a idéia de análise, onde deve haver muitos pontos de vista, e onde cada um está apresentando um diferente, analisando e fragmentando. Isto obviamente tem seu valor; mas é limitado e não nos levará muito além de nossos vários pontos de vista. A discussão é quase como um jogo de pingue-pongue, onde as pessoas estão rebatendo idéias de um para o outro e o objetivo do jogo é ganhar ou obter pontos para si próprio. Possivelmente você irá resgatar as idéias de alguém para dar suporte às suas — você pode concordar com alguma e discordar de outras — mas o ponto básico é ganhar o jogo. Este é, freqüentemente, o caso em uma discussão.

Num diálogo, entretanto, ninguém está tentando ganhar. Cada um vence se qualquer um vencer. Há um tipo diferente de espírito para ele. Num diálogo, não há tentativa de ganhar pontos ou de fazer sua visão específica prevalecer. Ao contrário, sempre que qualquer erro é descoberto da parte de qualquer um, todos ganham. É uma situação denominada ganha-ganha, enquanto o outro jogo é ganha-perde — se eu ganho, você perde. Mas um diálogo é algo mais que uma participação comum, na qual não estamos jogando um contra o outro, mas com o outro. Num diálogo todos vencem.
David Bohm
(conversa em 1989, após um seminário, na Califórnia, transcrição e edição Phildea Fleming e James Brodsky).

Aqui entre nós.


Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outroAtravés da palavra, defino-me em relação ao outroisto é, em última análiseem relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra, apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. (Bakhtin, 1997ª:113)

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

A linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo.

O objeto do discurso de um locutor, seja ele qual for, não é objeto do discurso pela primeira vez neste enunciado, e este locutor não é o primeiro a falar dele. O objeto por assim dizer já foi falado, controvertido, esclarecido, julgado de diversas maneiras, é o lugar onde se cruzam, se encontram e se separam diferentes pontos de vista, visões do mundo, tendências. Um locutor não é o Adão bíblico, perante objetos virgens, ainda não designados, os quais é o primeiro a nomear. 

A língua materna, seu vocabulário e sua estrutura gramatical, não conhecemos por meio de dicionários ou manuais de gramática, mas graças aos enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos na comunicação efetiva com as pessoas que nos rodeiam. (Mikhail Bakhtin, 1988:58) 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Ouvir é permitir a presença do outro.

O primeiro capítulo, ‘Sobre a comunicação’, fornece insights sobre as primeiras formulações de Bohm quanto ao significado do diálogo, em especial a maneira pela qual a sensibilidade  ‘à similaridade e à diferença’  se tornou parte do trabalho do cientista, do artista e das comunicações do dia-a-dia. O ensaio é premonitório em seu modo de falar sobre o ‘ouvir’, uma questão frequentemente mal compreendida no processo do diálogo. Ouvir, no contexto dialógico, é muitas vezes interpretado como uma sensibilidade profunda, cuidadosa e empática em relação às palavras e significados produzidos pelos membros do grupo. No entanto, ouvir faz parte do diálogo. Bohm delineia aqui uma concepção diferente de ouvir, na qual erros de percepção da fala de alguém podem levar ao surgimento de novos significados. Entender esse ponto é essencial para a compreensão do que ele acabou por denominar o ‘fluxo de significados’.

Diálogos possíveis.



Fred Astaire e Mané Garrincha
Cena do filme "Nós Que Aqui Estamos por Vós Esperamos", de Marcelo Masagão - 1998.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O diálogo está na Rede.

A forma de educar hoje, mais do que nunca, é através de um diálogo no qual todos os envolvidos possam se assumir como protagonistas. O hipertexto vem a criar as condições de possibilidades para tornar a sala de aula espaço de todas as falas, das redes de conhecimento, da construção coletiva, da partilha de interpretações.
Andrea  Ramal.

A dialogicidade.

Conhecer, que é sempre um processo, supõe uma situação dialógica. Não há estitamente um eu penso, mas um nós pensamos. Não é o eu penso que constitui o nós pensamos, mas, pelo contrário, é o nós pensamos que me faz possível pensar.

Responda quem souber.


Como fazer para tudo o que fazemos e pensamos se relacione com o que sentimos e sabemos?
Rita Couto 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Comunicação a favor do diálogo.

Durante as últimas décadas, a tecnologia moderna (...) as viagens aéreas e os satélites, teceu uma rede de comunicações que põe cada parte do mundo em contato quase instantâneo com todas as outras. (...) Ainda assim, em que pese esse sistema mundial de ligações, há, neste exato momento, um sentimento generalizado de que a comunicação está se deteriorando em toda parte, numa escala sem precedentes. As pessoas que vivem em diferentes países, com sistemas políticos e econômicos diversos, são muito pouco capazes de falar umas com as outras sem brigar. E, dentro dos limites de uma única nação, as diferentes classes sociais, econômicas e os grupos políticos caíram num padrão semelhante de incapacidade de entendimento mútuo. (...)

Dada a insatisfação disseminada com o estado de coisas acima descrito, tem havido um crescente sentimento de preocupação, cujo objetivo é resolver o que agora comumente se chama de 'problema de comunicação'. Contudo, quando se observa os esforços para tanto, nota-se que os diferentes grupos que neles se empenham não são capazes de ouvir uns aos outros. O resultado é que a própria tentativa de melhorar a comunicação leva com frequência a ainda mais confusão. E o consequente sentimento de frustração faz com que as pessoas se inclinem cada vez mais para a agressão e a violência, em vez do entendimento mútuo e da confiança.

Comunicar significa fazer juntos.

Quando se observa os esforços para resolver o que agora comumente se chama problema de comunicação, nota-se que os diferentes grupos que neles se empenham não são capazes de ouvir uns aos outros. O resultado é que a própria tentativa de melhorar a comunicação leva com freqüência a ainda mais confusão. E o conseqüente sentimento de frustração faz com que as pessoas se inclinem cada vez mais para a agressão e a violência, em vez do entendimento mútuo e da confiança. (...)

A comunicação pode levar à produção de algo novo se as pessoas forem capazes de ouvir livremente umas às outras. Ouvir sem preconceitos e sem tentar influenciar-se mutuamente. (...) Assim, se as pessoas quiserem cooperar (isto é, literalmente, ‘trabalhar juntas’, precisam ser capazes de criar algo em comum: alguma coisa que surja das suas discussões e ações mútuas, em vez de algo que seja transmitido por uma autoridade a outros que se limitem à condição de instrumentos passivos.

Siga o que seu mestre mandar.

Ao longo de sua carreira de físico teórico, Bohm destacou o fato de que, a despeito das pretensões de busca da ‘verdade’, o esforço científico sempre foi contaminado pela ambição pessoal, defesas rígidas de teorias e o peso da tradiçãotudo isso às custas da participação criativa na orientação dos objetivos científicos comuns. Baseado em parte em tais observações, Bohm afirmou que a maioria da humanidade havia sido aprisionada numa teia similar de intenções e ações contraditórias. A seu ver, tais contradições conduziam não a uma ciência de má qualidade, mas também a uma grande variedade de divisões sociais e pessoais. Segundo ele, essa fragmentação permeia todas as distinções culturais e geográficas e penetra em toda a humanidade, de tal maneira que nos tornamos fundamentalmente adaptados a ela.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O diálogo além das palavras.


Na superfície, o diálogo é uma atividade relativamente direta. Um grupo de quinze a quarenta pessoas se junta voluntariamente em círculo. Após alguns esclarecimentos iniciais sobre a natureza do processo, o grupo se defronta com a questão de como continuar. (...)

O diálogo é um processo de encontro direto, face a face, que não deve ser confundido com teorizações e especulações intermináveis. Numa época de abstrações cada vez mais rápidas e representações digitais sem emendas, a insistência em encarar a desordem inconveniente da experiência diária, corpórea, talvez seja a mais radical de todas as concepções.

sábado, 13 de novembro de 2010

Fala, Bohm.


A preocupação com incoerências aparentemente intratáveis do pensamento humano o levou a empenhar-se em pesquisas com pessoas cujos pontos de vista eram semelhantes aos seus. Entre elas, a mais proeminente foi o educador e pensador indiano Jiddu Krishnamurti.  O vídeo é um diálogo entre ambos.

O pensamento é gerado e mantido no plano coletivo.

Diálogo é um processo multifacetado, que vai muito além das noções típicas do linguajar e do intercâmbio coloquiais. É um método que examina um âmbito extraordinariamente amplo da  experiência humana: nossos valores mais intimamente arraigados; a natureza e a intensidade das emoções; os padrões de nossos processos de pensamento; a função da memória; a importância dos mitos culturais herdados; e, por fim, a maneira segundo a qual a nossa neurofisiologia estrutura a experiência do aqui e agora. (...)

No seu sentido mais profundo, o diálogo é um convite para pôr à prova a viabilidade de definições tradicionais do que significa sermos humanos e, no plano coletivo, investigar a perspectiva de uma humanidade mais digna.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

O que eu espero senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo.
(Winston Churchill)

É conversando que a gente se entende.

David Bohm em seu livroDiálogo, Comunicação e Redes de Convivência’, defende que, por meio dessas conversações, aprendemos a conviver uns com os outros e, especialmente, criamos novos mundos e evoluímos como espécie. Embora, particularmente, eu reconheça a importância das redes de conversações que se realizam por meio das mídias digitais, os encontros presenciais são o único caminho possível para se estabelecer o diálogo, que, na concepção de Bohm, é a corrente de significados que flui entre nós e por nosso intermédio

Sem a possibilidade de usar todos os sentidos, é quase certo de que o que teremos não é o diálogo, mas o debate e, ao invés da criação de novos mundos, a luta para defender visões de mundo particulares. Em certo sentido, é nesse estado que vivemos hoje, com o predomínio da discussão e da competição, em detrimento do diálogo e da colaboração. E o que se são pessoas tristes. Sem diálogo, as empresas se tornam depósitos de pessoas tristes, ao invés de fábricas de sorrisos.